A sessão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) desta quarta feira, 10, que discutia os atos antidemocráticos de 8 de janeiro, terminou com um dos maiores “carões” já registrados recentemente no Senado. O senador acreano Márcio Bittar (PL-AC), que tentou transformar a audiência em um palanque de defesa dos condenados pelos ataques às instituições, acabou sendo duramente enquadrado pelo presidente da CCJ, senador Otto Alencar (PSD-BA).
Bittar, em um longo discurso, voltou a relativizar os atos de 8 de janeiro, afirmando que “pessoas inocentes estão pagando por um crime que não cometeram”, atacando ministros do Supremo Tribunal Federal, insinuando pressões indevidas e comparando condenados por tentativa de ruptura democrática a perseguidos políticos da ditadura militar. Segundo ele, o Congresso deveria estar votando uma “anistia geral” em vez de discutir penas.
A retórica inflamável, porém, encontrou um freio imediato e histórico.
Visivelmente incomodado com a fala de Bittar, Otto Alencar não economizou palavras. Em tom firme, contundente e carregado pela autoridade de quem viveu o período da ditadura militar, o senador baiano desmontou cada uma das narrativas apresentadas por Bittar.
Primeiro, Otto contestou a insinuação de “pressão do STF”:
“Se Vossa Excelência tem algum senador que está sob pressão, deveria dizer. Eu não estou nesse meio, porque eu não aceito pressão de Supremo Tribunal Federal.”
Depois, partiu para o que talvez tenha sido o golpe mais duro ao senador acreano:
“Vossa Excelência fala sobre o golpe de 64 porque não viveu isso. Leu sobre o tema de forma simplória. Não sabe o que ocorreu.”
Otto relembrou torturas, mortes, cassações e exílios ocorridos durante o regime militar — fatos históricos que não se comparam, em absolutamente nada, aos atos violentos de 8 de janeiro, cujo objetivo declarado era derrubar a democracia.
De forma direta, emendou:
“Quem estava no 8 de janeiro estava para derrubar a democracia.”
O senador baiano também acusou Bittar de tentar “pintar um quadro que não corresponde à realidade” ao minimizar a intenção golpista do ex-presidente da República.
O tom do senador virou repreensão explícita quando Otto sublinhou a distância entre a experiência pessoal e a narrativa construída por Bittar:
“Vossa Excelência não teve colegas fuzilados. Não teve parentes cassados. Não viveu o que nós vivemos. Pegou em livro e leu de forma simplória.”
O recado foi claro: quem não vivenciou o regime militar não pode manipulá-lo para justificar atos golpistas contemporâneos, finalizou o senador Baiano.
