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POLÍCIA

Invasão à terra indígena Huni Kuin no Jordão leva medo e terror, mostra reportagem

Invasão à terra indígena Huni Kuin no Jordão leva medo e terror, mostra reportagem

Os povos kaxinawá do Seringal Independência, em Jordão, vivem momentos de tensão. Uma denúncia foi protocolada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) junto ao Ministério Público Federal (MPF). É o que mostra a reportagem de Kaio Magalhães, do jornal O Globo, que o Notícias da Hora reproduz na íntegra.

Cabeças de gado, pitbulls e árvores nativas no chão: MPF investiga invasão à Terra Indígena Huni Kuin no Acre

O Ministério Público Federal (MPF) investiga uma invasão de grileiros e madeireiros à Terra Indígena Huni Kuin (Kaxinawá) Seringal Independência, no município do Jordão, no interior do Acre, acusados de derrubar árvores nativas, extrair madeiras nobres e construir estruturas para abrigar mais de 600 cabeças de gado em território situado na Amazônia Legal, segundo relatos de associações indígenas.

Ao GLOBO, o MPF diz ter recebido, em fevereiro, um ofício da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) confirmando os episódios recentes. De acordo com o órgão, foi instaurado um procedimento para apurar os fatos e, a partir da análise das informações reunidas, “serão avaliadas as medidas cabíveis”.

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O documento enviado pela Funai ao MPF baseia-se em imagens geoespaciais e, segundo a fundação, elas comprovam a "extensão das áreas ilegalmente desmatadas" de vegetação nativa da Floresta Amazônica já em agosto de 2025. De acordo com o ofício, a invasão "trata-se de relevante dano aos direitos territoriais do povo Huni Kuin (Kaxinawá)" em meio a um "ambiente ecologicamente equilibrado". A Funai ainda afirma que disponibilizou efetivo de agentes para "planejar e executar urgentemente ação conjunta em reposta às denúncias formuladas pelas lideranças indígenas".

Liderança da Terra Indígena e chefe de cerca de 37 aldeias, Siã Huni Kuin diz que o rastro da invasão, atualmente, pode chegar aos 200 hectares de área desmatada, medida equivalente a mais de 250 campos de futebol. As madeiras, segundo ele, “são de lei”. Esse tipo de material é retirado de árvores nativas brasileiras e possuem alta densidade e durabilidade, e são valorizadas para elaboração de móveis e na construção civil. Siã descreve como os invasores agiram:
— Derrubaram as árvores, colocaram o gado e montaram uma estrutura com casa, internet e pitbulls — conta Siã.

A liderança explicou, ainda, que um dos grandes desafios é a demarcação dos limites da terra. Ele diz não haver qualquer tipo de placa oficial instalada no local para facilitar a identificação e evitar as invasões, mas garante que os indígenas que moram na TI reconhecem os limites da área e “quem não sabe são eles (os invasores)”.

Em 2023, o Ministério Público Federal entrou com uma ação para obrigar a Funai a sinalizar os limites da terra indígena. A sentença foi atendida de forma parcial, obrigando “que a Funai adote as providências necessárias quanto à sinalização dos limites territoriais” e determinou a “deflagração de procedimento para aquisição das placas sinalizadoras”. Em nota enviada ao GLOBO, o MPF diz acompanhar o andamento da ação para que a Terra seja “efetivamente sinalizada em seus limites”.

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— Eu quero um respeito um com o outro, e o Brasil devia seguir isso. Viver com paz. A gente quer seguir em paz — defendeu Siã Huni Kuin.

A denúncia mais recente foi apresentada pela Associação dos Seringueiros Kaxinawá do Rio Jordão (Askarj), responsável jurídica da Seringal Independência e outras duas Terras Indígenas da região.

De acordo com a queixa, os invasores já haviam realizado cortes de madeira durante o verão de 2025, deixando mais de 30 hectares de área desmatada e em 5 de janeiro de 2026 eles efetuaram o transporte ilegal do material pelo Rio Jordão. Destacaram-se, segundo uma vistoria realizada pela própria Askarj no local, a derrubada das espécies aguano e cedro, características da região preservada.

Outra prática observada no relatório da visita técnica foi a caça de animais silvestres com uso de cães. Segundo o documento, durante a vistoria “foram avistados diversos cachorros na floresta e nas margens do Igarapé Santa Cruz”, localizado no Seringal Independência.

A Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj) também acompanha a situação e afirma que ajuda no monitoramento da região. Francisco Pyãko, liderança do povo Ashaninka e coordenador da organização, defende ações imediatas para conter o avanço de crimes na região, que faz fronteira com o Peru:

— A gente tem feito denúncia sobre a necessidade de uma presença maior da Funai e dos demais órgão competentes para monitorar essa região. A situação é grave em vários territórios — afirma Francisco Pyãko.

Pyãko explicou que instituições da sociedade civil e organizações indígenas do lado brasileiro e peruano têm trabalhado no monitoramento da região, que também é marcada pelo crime organizado.

— Há uma pressão muito forte nos territórios por madeireiros, pelo garimpo e pelo narcotráfico, instalando muitas vezes pistas de pouso — finaliza.

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A Terra Indígena Huni Kuin (Kaxinawá) Seringal Independência tem situação jurídica classificada como dominial indígena, segundo dados do Instituto Socioambiental (ISA). A categoria é utilizada para áreas que pertencem diretamente aos povos indígenas, diferente do processo tradicional de demarcação conduzido pela Funai, no qual as terras passam por etapas como identificação, delimitação, homologação e registro. Nesse tipo de situação, o território é reconhecido como de domínio coletivo da comunidade indígena.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) disse ter sido comunicado pela Funai e pela associação sobre a invasão. Informou ainda que há uma ocorrência recente associada à “abertura de roçado para plantio” e confirmaram “alertas de maior magnitude” registrados no final do ano passado. Segundo a nota, o órgão aplicou multas aos responsáveis pelas ações do ano passado.

Procurada pelo GLOBO, a Funai não respondeu sobre as invasões à terra indígena até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.

*Estagiário sob supervisão de Daniel Biasetto.