Racismo não se discute.
Racismo se combate.
Recentemente, o Supremo Tribunal Federal reconheceu aquilo que a população negra sempre soube na prática: o racismo no Brasil é estrutural. Trata-se de um sistema que produz, de forma contínua, a violação de direitos fundamentais e a exclusão de pessoas negras em diferentes espaços da sociedade.
Isso significa algo simples de entender, mas grave em suas consequências: o racismo não é apenas uma ofensa individual. Ele é um problema coletivo, institucional e político.
A legislação brasileira já diferencia a injúria racial do racismo. Enquanto a injúria atinge uma pessoa, o racismo atinge um grupo inteiro e interfere diretamente na organização da sociedade. Ele se manifesta quando um grupo é excluído, quando políticas públicas falham sistematicamente e quando a desigualdade passa a ser regra.
Quando o STF afirma que o racismo é estrutural, está dizendo: as instituições também produzem e reproduzem o racismo.
Se isso é verdade, nenhuma instituição pública pode se eximir dessa responsabilidade.
O racismo não surgiu agora. Não nasceu no debate eleitoral para a reitoria da Ufac, por exemplo. Não apareceu de repente.
O racismo vem sendo construído todos os dias - nas omissões, nas escolhas administrativas, nas prioridades da gestão e no silêncio institucional.
Quando a Administração se manifesta apenas quando é conveniente, mas se recusa a implementar políticas estruturais de enfrentamento, o que se vê não é compromisso: é estratégia. É gestão de imagem.
Notas de repúdio não enfrentam o racismo. Comunicados não mudam estruturas. Discursos não substituem políticas públicas.
Quando as pautas históricas - construídas por décadas de luta do movimento negro, dos povos indígenas, das mulheres, da população LGBTQIA+ e das pessoas com deficiência - são capturadas por quem nunca enfrentou o problema de frente, o resultado é um só: vazio político disfarçado de compromisso social.
Gestão pública não é marketing. Não é uma reunião fechada. Não é um “grupo focal” seletivo.
Gestão pública é responsabilidade. É reconhecer o problema. É ouvir a comunidade. É construir políticas. É executar ações concretas. É avaliar resultados. É corrigir rumos.
Sem isso, o que existe não é enfrentamento: é inércia. E ela também é uma forma de violência institucional.
Contribuiu decisivamente, ao longo dos últimos tempos, para a perpetuação dessa violência institucional, na UFAC, a ausência de políticas, de ações concretas e de instâncias internas para lidar com a complexidade do problema do racismo e da discriminação. A ausência de uma corregedoria na instituição, estrutura administrativa essencial para coordenar, supervisionar e executar a atividade correcional, por exemplo, inviabiliza o acompanhamento efetivo de casos de racismo e outras formas de discriminação. Instituições que não estruturam mecanismos permanentes de prevenção, fiscalização e responsabilização não enfrentam a discriminação de forma sistêmica.
Não precisamos de mais notas. Precisamos de medidas.
Não precisamos de mais discursos. Precisamos de compromisso.
Não precisamos de mais conveniência. Precisamos de coragem política.
Racismo se enfrenta com ação. Racismo se enfrenta com política pública. Racismo se enfrenta com responsabilidade institucional.
E quem não enfrenta, faz parte do problema.
