O podcast Conversa Franca, apresentado por Willians França no portal Notícias da Hora, recebeu a historiadora e indígena Liliane Puyanawa, que trouxe explicações diretas e educativas sobre a identidade indígena, a organização interna das etnias, a espiritualidade, os impactos históricos do período dos seringais e os desafios ainda enfrentados pelos povos originários no Acre.
Durante o bate-papo, Liliane que é formada em História pela UFAC e atualmente atuando na Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas (SEPI) destacou que o podcast tem papel importante em desmistificar conceitos, combater preconceitos e corrigir termos ainda usados de forma equivocada.
Logo no início, a convidada explicou a importância de usar nomenclaturas corretas. Ela pontuou que muitos ainda usam o termo “tribo”, mas o mais adequado é se referir a etnias ou povos indígenas, reconhecendo a diversidade existente.
Liliane ressaltou que o Acre abriga mais de 15 povos indígenas, e que no Brasil existem centenas de etnias, com culturas, línguas e organizações próprias.
Puyanawa: “povo do sapo”
Ao apresentar a própria origem, Liliane explicou que pertence ao povo Puyanawa, localizado na região de Mâncio Lima, convivendo próximo de outros povos como Nukini e Nawa. Segundo ela, o nome tem significado ancestral:
• Puya = sapo
• Nawa = gente
Ou seja: “gente do sapo”.
Ela também contextualizou que, antes de ser oficialmente território indígena, a área foi marcada por exploração e transformações impostas no período em que a região era ligada a fazendas e, posteriormente, à lógica econômica dos seringais.
Um dos trechos da conversa foi quando Liliane detalhou como, durante a ocupação do Acre por seringalistas, muitos povos indígenas foram usados como mão de obra e sofreram tentativas de apagamento cultural.
Ela relatou que houve períodos em que mulheres foram separadas dos homens, o que resultou em casamentos forçados ou induzidos com não indígenas, além de episódios de violência e “caça” de mulheres realidade que sobrevive em expressões populares consideradas ofensivas, como a ideia de que alguém “foi pega no laço”.
Língua proibida e punições cruéis
Liliane também descreveu a repressão às línguas indígenas na era dos seringais. Segundo ela, falar a própria língua era visto como “cortar gíria”, e muitos eram forçados a adotar o português. Ela destacou que existiam punições severas para quem insistisse em falar a língua nativa, justamente para impedir a comunicação interna e enfraquecer a identidade dos povos.
Apesar disso, ela celebrou o processo atual de fortalecimento linguístico, especialmente dentro da escola indígena do território Puyanawa, onde a língua é ensinada e também preservada por meio de cantos tradicionais.
Como funciona a liderança: cacique e espiritualidade
Ao explicar a organização interna, Liliane afirmou que cada povo tem sua forma própria de governança, mas que, no caso Puyanawa, a liderança é representada pelo cacique (também entendido como uma liderança que organiza e decide junto com a comunidade, sem autoritarismo).
Ela também falou sobre o papel espiritual, frequentemente associado ao pajé, explicando que muitas comunidades mantêm responsáveis pelo cuidado espiritual e pelo uso das medicinas da floresta. No caso Puyanawa, ela citou o uso de tradições e conhecimentos ligados ao fortalecimento espiritual e cultural.
Kampô: uso com responsabilidade
Outro ponto que chamou atenção foi o debate sobre o kampô (conhecido popularmente como “vacina do sapo”). Liliane contou que já vivenciou a experiência em sua aldeia, reforçando que não se trata de curiosidade ou modismo:
• deve ser feito com responsabilidade,
• com pessoas experientes,
• em ambiente seguro e com orientação.
Ela explicou que o objetivo, na visão tradicional, é fortalecer o organismo e o sistema imunológico, dentro de um contexto cultural e espiritual.
Dia dos Povos Indígenas: mudança com mais respeito
Liliane explicou por que o antigo “Dia do Índio” passou a ser chamado de Dia dos Povos Indígenas: segundo ela, “índio” é um termo historicamente imposto pelo colonizador, enquanto “povos indígenas” reconhece a diversidade de etnias e identidades existentes.
Ela ainda citou que essa mudança representa uma atualização importante na forma como a sociedade deve se referir aos povos originários, com mais precisão e respeito.
Durante o programa, também foi levantada uma preocupação social séria: práticas de comerciantes que retêm cartões de indígenas e fazem “trocas” exploratórias, com cobrança de valores abusivos.
Liliane afirmou que houve atuação do Ministério Público em casos desse tipo, com medidas para coibir a prática. Ela explicou que a vulnerabilidade aumenta em locais onde há barreira linguística e menor acesso à informação, principalmente em municípios mais distantes.
A convidada apresentou peças de artesanato adquiridas em territórios indígenas, explicando que muitos itens são feitos com miçangas, sementes, palha e algodão, refletindo uma “tecnologia ancestral” transmitida entre gerações.
Ela reforçou que comprar artesanato indígena é também apoiar a economia comunitária e fortalecer a cultura, mas chamou atenção para um detalhe: é importante saber de qual povo vem o artesanato, para respeitar e valorizar a identidade de cada etnia.
“Não existe bolsa Funai”
No encerramento, Liliane deixou um alerta importante sobre desinformação nas redes sociais: não existe “bolsa Funai”. Segundo ela, esse termo circula em tom de ironia em alguns conteúdos, mas não corresponde à realidade.
Ela explicou que a Funai tem papel de demarcar e proteger territórios, e que indígenas trabalham, estudam e constroem suas trajetórias como qualquer cidadão.
