A segunda-feira, 19 de janeiro de 2026, marca mais do que o encerramento de um mandato sindical. Marca o fechamento de um ciclo tecido com palavras, lutas e escolhas que recusaram o conforto do pensamento abstrato para se firmar na prática política, como ensinou Florestan Fernandes. Após quatro anos à frente da Associação de Docentes da Universidade Federal do Acre (ADufac), a professora Letícia Helena Mamed despede-se oficialmente da presidência da entidade, deixando como herança um sindicato fortalecido, ampliado e atento às dores e esperanças de sua base.
Foram dois mandatos consecutivos (2022–2024 e 2024–2026) vividos em um dos períodos mais desafiadores da história recente da Educação brasileira. Em um contexto de ataques sistemáticos à universidade pública, às professoras e aos professores, Letícia assumiu a ADufac com humanidade, coragem e senso coletivo. Não por acaso, tornou-se apenas a segunda mulher, em 46 anos de existência da entidade, a ocupar a presidência — um dado que, por si só, já carrega densidade histórica.
A gestão foi marcada por escuta e presença. No retorno às atividades presenciais após a pandemia, a ADufac saiu dos gabinetes para reencontrar sua base, dialogar com filiadas e filiados e compreender, de perto, um tema que se impôs como ferida aberta: o adoecimento docente. A sobrecarga do trabalho remoto, a ampliação das jornadas e a precarização das condições de trabalho exigiram respostas coletivas, e o sindicato buscou construí-las a partir do chão da universidade.
O resultado foi visível. Em contramão a uma tendência nacional e internacional de retração sindical, a ADufac cresceu. Aumentou o número de sindicalizações, ampliou o quadro de docentes ativos e reequilibrou a proporção entre ativos e aposentados — um feito expressivo para uma seção sindical de pequeno a médio porte no cenário do ANDES-SN.
Em sua mensagem pública de despedida, que deverá ser registrada nas redes institucionais da ADufac, Letícia Mamed reafirma o orgulho de integrar o ANDES-SN, que define como o maior sindicato do setor público do Brasil e um dos maiores do mundo, destacando sua organização pela base, autonomia e independência. São princípios que, segundo ela, orientaram cada passo de sua gestão.
Ao encerrar o mandato, a professora faz questão de sublinhar que a entidade seguirá preparada para os embates futuros. A nova diretoria, liderada pelo professor Gerson Albuquerque, assume um sindicato fortalecido, chamado a continuar a defesa intransigente da universidade pública, gratuita, laica, democrática, socialmente referenciada e com financiamento público adequado.
A despedida não é um adeus à luta. Letícia passa agora a assumir novas responsabilidades como diretora regional e nacional do ANDES-SN, missão igualmente legitimada pelo voto democrático. Paralelamente, seu nome começa a circular nos corredores acadêmicos e políticos como possível candidata à Reitoria da Universidade Federal do Acre, em um processo eleitoral previsto para ocorrer entre março e maio deste ano — um sinal de que sua trajetória pública segue em movimento.
Em tom de gratidão, a professora registra agradecimentos às funcionárias e funcionários da ADufac, às diretorias que a acompanharam, às docentes e aos docentes sindicalizados, às técnicas e técnicos, estudantes, movimentos sociais, sindicatos e partidos parceiros. E amplia o gesto ao reconhecer a honra de caminhar ao lado das trabalhadoras e dos trabalhadores das cidades e das florestas da Amazônia acreana.
Assim, entre a academia e a prática política, Letícia Mamed encerra seu ciclo na ADufac como quem fecha um livro sem ponto final — consciente de que a história segue aberta, escrita a muitas mãos, na escuta, no acolhimento e na solidariedade de classe.
