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Doença silenciosa, luta permanente: Aphac transforma prevenção e diagnóstico em arma contra as hepatites no Acre

Doença silenciosa, luta permanente: Aphac transforma prevenção e diagnóstico em arma contra as hepatites no Acre

Em uma casa discreta na Rua Farroupilha, no bairro Bosque, em Rio Branco, funciona uma das instituições mais respeitadas do país no enfrentamento às hepatites virais. Com 33 anos de atuação, a Associação dos Pacientes Hepáticos do Acre (Aphac) se tornou referência nacional ao unir diagnóstico precoce, tratamento e mobilização social em torno de uma doença que avança sem dar sinais.

Mais do que falar sobre transplantes ou doação de órgãos, a entidade atua onde o problema começa: na identificação de quem carrega o vírus sem saber. “O foco principal é tratar a doença e encontrar os portadores que estão transmitindo sem saber. Esse é o grande desafio”, afirma o presidente da associação, Heitor Neto.

A fala resume a principal preocupação da entidade. As hepatites virais, especialmente B e C, são conhecidas por sua evolução silenciosa. Em muitos casos, o paciente convive por anos com o vírus sem apresentar sintomas e, nesse período, pode infectar outras pessoas.

“Na maioria dos casos, as pessoas não sabem que têm. É uma doença silenciosa, que pode ficar de 10 a 20 anos no organismo sem se manifestar. Quando descobre, muitas vezes já está em estágio avançado”, alerta Neto.

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Um problema invisível e subestimado

Os números dimensionam a gravidade da situação no Acre. Estimativas trabalhadas pela Aphac apontam que cerca de 80 mil pessoas podem estar infectadas no estado, aproximadamente 10% da população. Destas, apenas metade foi diagnosticada.

“Como não há sintomas, a pessoa segue a vida normalmente e acaba transmitindo. Pode ser por relação sexual, contato com sangue ou até dentro de casa, compartilhando objetos pessoais, como lâmina de barbear”, explica o presidente.

A negligência no enfrentamento da doença também é alvo de críticas. Segundo ele, as ações de conscientização ainda são pontuais. “Não dá para tratar prevenção só no Dia Mundial das Hepatites. É uma doença que mais mata no estado e precisa de atenção contínua”, enfatiza.

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A atuação que preenche lacunas

Dentro da sede da associação, o combate à doença acontece diariamente. Testes rápidos para hepatites B e C, HIV e sífilis são oferecidos gratuitamente, além de encaminhamento imediato para tratamento na rede pública.

Ao longo do ano, a entidade também leva atendimento para comunidades urbanas e rurais, alcançando locais onde o poder público nem sempre consegue chegar.

“Nós fazemos, em média, 1.500 atendimentos externos por ano. Atuamos em escolas, igrejas, supermercados e comunidades isoladas. É um trabalho que ajuda inclusive o município a cumprir metas de vacinação”, destaca Neto.

Essa atuação, no entanto, depende de uma engrenagem delicada de financiamento.

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Sobrevivendo com apoio político

Integrante da diretoria, Heitor Júnior explica que a manutenção da associação só é possível graças a emendas parlamentares.

“Sem esse recurso, a associação seria inviável. Temos cerca de 11 mil associados, mas mais de 90% não contribuem financeiramente, até porque não é obrigatório”, afirma.

Ele detalha que os custos vão desde a estrutura física até ações em áreas de difícil acesso.

“Levar atendimento para regiões como Transacreana ou BR-364 exige logística, combustível e equipe. Sem apoio, não conseguimos chegar nessas pessoas”, diz.

Apesar das dificuldades, a entidade mantém quatro funcionários, veículos e uma rotina intensa de atendimentos, sustentando uma estrutura considerada enxuta para o tamanho da demanda.

Nos últimos anos, o Acre avançou significativamente no tratamento da hepatite C, hoje considerada curável. Segundo a Aphac, mais de 6 mil pessoas já foram tratadas com sucesso desde a chegada da medicação ao estado, em 2015.

“O tratamento dura de três a seis meses, não tem efeitos colaterais e é custeado pelo SUS. É um avanço extraordinário”, afirma Neto.

Por outro lado, as hepatites B e D ainda não têm cura, embora a B possa ser evitada com vacina. O problema, segundo a associação, está na baixa adesão ao esquema completo. “As pessoas não voltam para a terceira dose. Esse é um dos maiores gargalos, principalmente em regiões de difícil acesso”, pontua.

A entidade, inclusive, defende mudanças no calendário vacinal para facilitar a imunização em áreas isoladas, reduzindo o intervalo entre as doses.

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Transplantes e a barreira cultural

Outro ponto crítico é a captação de órgãos no estado. Apesar da existência de estrutura adequada, a doação ainda enfrenta resistência. “A questão não é equipamento, é conscientização. A família precisa autorizar e, muitas vezes, ainda há esperança de reversão do quadro, mesmo em morte encefálica”, explica Heitor Júnior.

Ele destaca que uma única doação pode salvar até três vidas, mas o número de captações ainda está abaixo do necessário. “Falta campanha permanente e diálogo com a sociedade. É uma barreira cultural que precisa ser enfrentada”, reforça.

Por trás dos números e das estatísticas, há histórias que explicam a dedicação de quem mantém a associação ativa. Para Heitor Neto, a luta contra as hepatites também é pessoal.

Ele perdeu a mãe para a doença, uma dor que transformou em missão. “Virou um propósito de vida. A gente trabalha para que outras pessoas não passem pelo que eu passei”, diz.

A mesma motivação move a equipe que, há mais de três décadas, atua de forma contínua, muitas vezes suprindo falhas estruturais do sistema público.

Durante visita à associação, o deputado estadual Whendy Lima destacou a relevância do trabalho desenvolvido pela entidade e relembrou sua proximidade com a causa.

“Eu já tive esse trabalho na Assembleia com o Heitor, acompanhei de perto essa luta, inclusive em Brasília, em busca do medicamento de combate à hepatite C. É uma causa que eu abracei também por uma experiência pessoal, já que meu pai enfrentou a doença. Sou muito grato por todo apoio que tivemos naquele momento”, afirmou.

O parlamentar ressaltou ainda o papel das emendas parlamentares para a manutenção das atividades da associação. “Através do nosso trabalho político, temos a obrigação de fazer com que esse apoio chegue até a ponta. A Aphac salva vidas, dá oportunidade e precisa continuar crescendo. Esse é o nosso compromisso”, declarou.

Para a Aphac, o enfrentamento das hepatites no Acre passa por um esforço conjunto entre poder público, sociedade e organizações sociais. “É preciso união. A doença está aí, silenciosa, avançando. Se não houver ação contínua, ela vai continuar fazendo vítimas”, alerta Júnior.

Enquanto isso, na sede da associação, a rotina segue intensa. A cada teste realizado, a cada diagnóstico confirmado e encaminhado, a entidade reafirma seu papel: salvar vidas antes que o silêncio da doença fale mais alto.