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Papo de Cafezinho - Por Jairo Carioca

De grão em grão café do Acre chega ao Peru com perspectiva de ganhar o mundo

De grão em grão café do Acre chega ao Peru com perspectiva de ganhar o mundo

Sabe aquele ditado popular que de grão em grão a galinha enche o bico? Esse é o quadro atual da cultura cafeeira no Acre. Embora a produção ainda não atenda a demanda de mercado interno - 2.990 toneladas produzidas em 2023 – “café não vai sobrar”, garantiu uma das maiores industrializadoras de café do estado, a empresária Luciana Moreto, do Café Contri. “A colheita nos próximos dois anos do que já foi plantado, vai nos tornar autossustentável” acrescentou.

Recém-chegada da Feira Internacional de Cafés Especiais, que aconteceu entre os dias 3 e 6 de novembro, em Puno, no Peru, Luciana garantiu que o café acreano entrou na América Latina. “Testes de blends deixaram os empresários peruanos interessados no café robusta produzido no Acre”, destacou.

Teste de blends é a mistura planejada de diferentes tipos e variedades de grãos com o objetivo de obter uma bebida equilibrada e de boa qualidade! O café acreano também foi aprovado na maior feira da América Latina, na 10ª semana internacional do café que aconteceu em Belo Horizonte-MG de 8 a 10/11.

A produtora Elizelda de Lara Caffer teve a qualidade do seu produto reconhecida. “A produtora fez a inscrição para participar do concurso florada premiada, realizado pela empresa três corações. Mesmo não estando entre as finalistas, a empresa reconhecendo a qualidade do café especial produzido pela cafeicultora, fez o convite para que a mesma participasse do evento de premiação, sendo reconhecida por produzir o melhor café regional”, informou ao Papo de Cafezinho, Michelma Neves, coordenadora do núcleo de cafeicultura da Secretaria de Agricultura do Estado do Acre (Seagri)

WhatsApp_Image_2023-11-14_at_15.33.20.jpegEm Puno, empresa do Acre realizou testes de blends que agradaram o paladar de empresários do Peru, interessados no café produzido no Acre

A entrada do café acreano no mercado andino é mais uma prospecção que conta com a consultoria da Perbra Holding – empresa de exportação e importação – que através do empresário Alejandro Salinas, vem, desde a Expoacre 2022, colocando produtos acreanos no mercado internacional, fortalecendo o corredor interoceânico da Amazonia Ocidental. “O corredor interoceânico não é mais um sonho, é uma realidade. Estamos falando de um mercado com mais de 30 milhões de habitantes somente no Peru que tem interesse no que o Acre oferece de melhor para exportação”, observou Salinas.

Sem cafezinho – as capsulas Contri tinham acabado, o secretário de agricultura, Luiz Tchê, também nos recebeu em seu gabinete para falar sobre o assunto. Tão otimista quanto os produtores, ele quer levar para o mundo um café com a marca da Amazônia. “O nosso café vai ser vendido através da história e do produto, afinal, estamos produzindo, mas, deixando a floresta em pé. Tem um público interessado nesse valor agregado”, avaliou o secretário.

A entrevista com o titular da Seagri é apenas uma degustação, será tema do próximo Papo de Cafezinho. Veja na integra, a prosa com a empresária Luciana Moreto, inspirada com goles do café Sarah, o extra forte da Contri.

WhatsApp_Image_2023-11-14_at_15.34.46.jpegProdutores do Acre passaram a trabalhar com assistênia técnica primando pela qualidade do produto, seguindo tendências do mercado internacional

Jairo Carioca – Como é entrar em um mercado tão exigente, com os melhores cafés do mundo como o Peru? Tem muita ousadia nessa aposta empreendedora.

Luciana Moreto – O café do Acre ganha protagonismo em eventos nacionais e internacionais. Esse é um trabalho realizado por nossos produtores e a união de esforços entre governo e instituições do nosso estado que nós precisamos reconhecer. O concurso do café apresentou nosso produto ao mundo. Com relação ao mercado peruano, falamos de café diferente, notas sensoriais e aromas diferenciados. Os testes de blends foram extraordinários, a ideia é unir o café produzido por eles (Peru) com o da espécie robusta produzida na Amazônia. Esse padrão vai ganhar o Peru e outros países do mundo com valor agregado.

Jairo Carioca – O café produzido em capsula é um diferencial, isso também chamou a atenção dos empresários peruanos?

Luciana Moreto – Em termos de inovação estamos à frente de empresários do Vale Sagrado. Produzimos uma capsula 100% biodegradável que é um modelo adequado para a região que tem um potencial turístico gigantesco. As tratativas vão além, os produtores peruanos ficaram interessados no nosso café e impressionados com a nossa produção. Receberemos uma caravana de peruanos até o final de novembro para ver o nosso beneficiamento e tecnologias de produção. . As perspectivas são excelentes.

WhatsApp_Image_2023-11-14_at_15.36.55.jpegCriador do café Contri, empresário Beto Moreto começou vendendo café no quintal da casa, na década de 80 quando os pais, cafeicultores, se mudaram de Santa Catarina para o Acre

Jairo Carioca – O Acre ainda não produz café para o consumo interno, como apostar em exportação para o Peru e para o mundo com apenas 2.990 toneladas produzidas por ano?

Luciana Moreto – Café não vai sobrar, isso é motivador. A colheita nos próximos dois anos do que já foi plantado vai nos tornar autossustentável. O mercado interno sofre uma concorrência muito forte com as marcas nacionais, o que não for consumido aqui (no Acre), pode ser exportado ao Peru. Acredito que a partir dessa experiência com os andinos, outras portas desse exigente mercado vão se abrir. Temos que esta preparados.

Jairo Carioca – O preço da saca do café robusta hoje está a R$ 550, já chegou a mais de R$ 880. Como você ver essa volatilidade dos mercados, isso pode afetar a economia de quem aposta nessa cultura?

Luciana Moreto – eu sempre defendi a diversidade de negócios, dentro da realidade e capacidade de cada produtor. Acho que o empreendedor pode investir na pecuária e na plantação de grãos e em outros setores como criação de pequenos animais, enfim, ter diversificação para vencer as altas e baixas de mercado. Quando a pecuária não tem preço bom ele vai ter o milho, a soja, o café, e até o peixe como alternativas. Não é só plantar café, existem as técnicas que nos levam a um produto de qualidade, convivemos com as previsões de safra que dependem das condições climáticas, de um bom solo e, por último, da variação cambial. É preciso capricho, vocação, entrega à lavoura. Precisamos colocar na ponta do lápis a exigência do consumidor de café, esse público prima pela qualidade. Se não cumprir um rito, o produtor sai falando mal da atividade, por falta da rentabilidade do negócio. Não é de qualquer jeito, não podemos agir por impulso de mercado sem se preocupar com o que estamos produzindo. A quantidade tem que ser alinhada com a qualidade sempre.

WhatsApp_Image_2023-11-14_at_15.38.54.jpegElizelda de Lara Caffer, premiada em concurso nacional promovido pela Três Corações como melhor café regional

Jairo Carioca – o grupo Contri tem mais de 36 anos no mercado. A receita para se manter tanto tempo no topo é o que você chama de vocação?

Luciana Moreto – Trabalho com dignidade, respeitando o potencial das pessoas, valorizando o produtor rural, o colaborador, respeito aos fornecedores e clientes, vocação e entrega ao negócio, acompanhar as tendencias e inovações do mercado. O Beto Moreto começou a torrar café no quintal de sua casa, vendia 5 kg por dia. Foi crescendo, até chegar aonde chegou. Hoje temos um sistema automatizado com capacidade de produzir 1,2 toneladas por hora, geramos 35 empregos diretos, fora os produtores. Inovamos, além do café gourmet disponibilizado em grãos para quem tem máquinas, temos o café torrado e moído para quem tem um bom paladar e quer fazer um bom café em casa. Quem gosta de café desperta para o consumo do que existe de melhor em qualidade. É uma tendência mundial.

WhatsApp_Image_2023-11-14_at_15.39.43.jpegDe Acrelândia para as regionais do estado do Acre, em 2023, cultivo atingiu 2.990 toneladas de café

Jairo Carioca – Vocês compram café do grande e do pequeno produtor?

Luciana Moreto – Aqui não tem tamanho, já compramos até 8 kg de um produtor que bateu em nossa porta. De grão em grão abastecemos o nosso sistema. Primamos por excelência, o produto que apresenta características ideais, como sabor, aroma, aspecto neutro e acidez mediana. Esse é o foco.

Jairo Carioca – o governo tem ajudado. Há o que se destacar nessa relação com o estado?

Luciana Moreto – Certamente, quando o empresário diz que o estado ajuda não atrapalhando, ele se refere a condições de segurança para realização de investimentos. O empresário do agro quer infraestrutura, energia, incentivos fiscais e desburocratização. O resto a gente sabe fazer. Temos que reconhecer algumas ações do governador Gladson Cameli nesse processo, os números estão aí para mostrar o desempenho do agronegócio nos últimos anos.

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