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Baixaria - com Cesário Braga

Cooperativismo (Parte II): quando a teoria vira desenvolvimento da organização coletiva à geração de renda

Cooperativismo (Parte II): quando a teoria vira desenvolvimento da organização coletiva à geração de renda

No artigo anterior, discutimos como o cooperativismo se apresenta como uma das estratégias mais eficientes para fortalecer a agricultura familiar, permitindo ganho de escala, acesso a mercados e melhor organização produtiva. Mais do que uma alternativa, defendemos que, diante das exigências do mercado, a organização coletiva se torna uma necessidade para que os pequenos produtores consigam competir e permanecer com dignidade no campo.

Mas o que realmente importa é quando essa lógica sai do papel e se materializa na vida real.

Na semana passada, estive na assembleia de prestação de contas da Cooperxapuri, em Xapuri, onde apresentamos alguns dos avanços construídos a partir do acesso ao crédito, da PGPM-Bio e do Programa de Biodiesel Social. O salão paroquial estava cheio, reunindo cooperados em um ambiente de participação ativa, onde não se discutiam apenas dificuldades, mas também resultados concretos.

Um dos pontos do debate dizia muito sobre o momento vivido: os custos de produção e o destino das sobras. Sim, das sobras. A cooperativa teve resultado positivo, e o foco da discussão era como reinvestir coletivamente aquilo que foi construído por todos. Esse é um ponto fundamental, pois demonstra uma mudança estrutural na forma como esses produtores estão inseridos na economia.

Quando o produtor atua de forma isolada, sua capacidade de geração de renda é limitada e altamente vulnerável. Já dentro de uma cooperativa, ele passa a integrar uma estrutura econômica organizada, com maior capacidade de produção, comercialização e planejamento. É exatamente isso que vimos na prática.

Hoje, a Cooperxapuri reúne cerca de 300 cooperados, ou seja, 300 famílias inseridas de forma ativa na economia. Isso significa produção estruturada e geração de renda. A agroindústria vinculada à cooperativa emprega diretamente cerca de 50 trabalhadores, e o impacto se amplia quando observamos o conjunto da economia do município.

A estimativa é de que aproximadamente 12 milhões de reais circulem anualmente em Xapuri a partir das atividades da cooperativa. Esse recurso não fica concentrado. Ele se distribui, movimenta o comércio, gera oportunidades e ativa uma cadeia de serviços que envolve diaristas, freteiros e pequenos prestadores de serviço. É gente trabalhando, comprando, investindo e fazendo a economia girar. Essa experiência confirma, na prática, o que defendemos: a agricultura familiar organizada não é apenas uma política social, mas um vetor econômico relevante.

Mesmo com os avanços, o apoio do Estado ainda está aquém do necessário para que esse potencial seja plenamente desenvolvido. Ainda assim, a cooperativa segue avançando, com iniciativas como a implantação de um ponto de coleta de frutas e a expansão do cultivo de cacau e café, buscando diversificar a produção e ampliar as oportunidades para os cooperados.

O que essa realidade nos permite afirmar é que, com as condições adequadas, o impacto pode ser ainda maior. A ampliação da assistência técnica pode elevar a produtividade, o fortalecimento do acesso ao crédito pode viabilizar novos investimentos, e a melhoria da infraestrutura é essencial para garantir o escoamento da produção durante todo o ano. Ainda há comunidades que enfrentam dificuldades para retirar sua produção no período chuvoso, como no caso da castanha, o que limita o potencial econômico dessas atividades.

Com esses entraves superados, o avanço na produção e consequentemente na agroindustrialização tende a gerar mais empregos, aumentar a renda e consolidar um modelo de desenvolvimento baseado na produção e na distribuição. O que vimos em Xapuri não é um caso isolado, mas um indicativo concreto de caminho. Se no artigo anterior apresentamos o cooperativismo como estratégia, aqui temos a demonstração de que ele funciona na prática e de que pode desempenhar um papel central no desenvolvimento econômico do Acre.

Mais do que produzir, cooperar tem se mostrado uma forma eficiente de gerar riqueza e distribuí-la de maneira mais justa. E é exatamente esse tipo de desenvolvimento que pode fazer a economia do estado crescer de forma consistente e sustentável.