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A visão na janela - Com André Fabris

Existe alguém aumentando os decibéis do mundo

Existe alguém aumentando os decibéis do mundo

Nota do autor: Um registro de uma tarde de segunda-feira na Paraíba. Sobre a arte de Hermano José, as falésias, a resistência dos corais e a nossa desesperada tentativa de encontrar pausas em um mundo que desaprendeu a sentar e conversar.

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Encosto as costas no tronco do coqueiro e sinto o frio vindo de dentro contrastar com o calor desta tarde de março. Há o vento, ele balançando as folhas, o som rítmico das águas, mas o cheiro me trai: esperava a maresia limpa, e o ar carrega uma mistura estranha de cigarro de cravo com o tempero de alguma comida que não sei nomear. Talvez seja só comida. Não sei.

Atrás de mim, a casa imensa do artista Hermano José repousa com as portas trancadas por uma greve. À minha frente, a elevação da areia esconde quase tudo da praia. Uma moto solitária. Pombas ciscando o vazio. Uns três pescadores lançando seus anzóis na calmaria de uma segunda-feira que seria qualquer, não fosse de férias — aqui, em João Pessoa.

Para mim, que venho do Sul, este mar tem uma aparência diferente. As ondas arrebentam mansas, quase tímidas, mas lá no fundo avisto uma linha branca e contínua de espuma dividindo o azul. Os recifes de coral, imagino, protegendo a costa. Olho para aquela barreira e torço, em silêncio, para que ainda estejam vivos debaixo d'água.

Quando viro o rosto para a direita, lá longe, uma muralha de arranha-céus rasga o horizonte. A cidade que não para de crescer; os dentes de concreto do nosso tempo avançando sobre a areia.

Trouxe apenas a minha garrafa de água. O cenário aqui, espremido entre os recifes e os prédios, respira uma solidão mansa.

Olhando para os muros envidraçados, fico imaginando o mestre que ali viveu. Hermano era um artesão de tempos lentos. Sua arte exigia o silêncio de quem passa horas riscando o metal com agulhas finas, aprendendo a desenhar a luz pela ausência dela.

Fico pensando nesse homem de alma tão profunda sendo arrastado para um desses eventos modernos e festivos, cheio de convidados ansiosos e amizades de ocasião. Visualizo Hermano no meio de um salão. Taças batem, telas de celular brilham, vozes competem umas com as outras sem que ninguém, de fato, ouça. A multidão gira ao redor dele — não para entender sua arte, mas para consumir sua presença, tirar uma foto rápida e seguir em frente.

Ele tenta conversar, genuinamente. Fala sobre a cor do entardecer nas falésias, sobre a beleza de um detalhe simples; é atropelado pela pressa. Alguém o interrompe para falar de dinheiro; outro vira as costas no meio da frase para acenar a um conhecido famoso. Hermano descobre-se sozinho no meio do barulho, reduzido a um enfeite. A dor dele não é raiva. É a tristeza quieta de quem percebe que a conexão verdadeira sumiu, trocada por um teatro raso.

É a mesma doença que afeta o nosso descanso diário e que ergue aquelas torres lá no fundo. Transformamos o lazer em uma gincana exaustiva; o mundo nos empurra para estarmos sempre ocupados, pulando de atração em atração, cercados de grupos imensos sob um sol ardente, mas incapazes de ouvir a voz de quem está ao lado. O afeto escorre pelos dedos, líquido e fugaz, enquanto a obrigação de "se divertir" nos ensurdece.

O vento bate de novo no coqueiro e me traz o rosto dela.

Por uma dessas ironias poéticas que a vida inventa, enquanto me abrigo em frente à casa trancada do artista, a Pati está agora mesmo caminhando nas falésias — a mesma paisagem ocre que Hermano tanto amou, pintou e tentou proteger desse avanço impiedoso. Ela lá no alto, diante da rocha esculpida pelo tempo; eu cá embaixo, buscando o silêncio. No fundo, tateamos a mesma beleza.

O que nos separa e nos reencontra — e agora falo de nós, humanos, sem vírgula se pudesse — não é a falta de amor. É apenas essa máquina de moer atenção que nos impede de estarmos presentes.

É nessa busca por presença que a memória de Havana me abraça como um oásis.

A paz que encontrei em Cuba, anos atrás, nascia justamente da pausa. Lá, a resistência contra a escassez virou puro afeto. Lembro das pessoas nas praças antigas, sentadas em muretas de pedra ou sob a sombra das árvores, sem pressa para ir a lugar nenhum.

A conversa não era um intervalo rápido entre duas tarefas; era o prato principal. O olhar era demorado. Quando a vida material é difícil, a presença inteira do outro se torna o bem mais valioso que existe.

Às vezes penso que seria mais simples não ter passado por isso. Mas não trocaria.

Ao doar sua casa espaçosa para o público, Hermano José entendeu isso. Não deixou apenas paredes; tentou frear os arranha-céus. Criou uma ilha de calma no meio do nosso caos — um refúgio onde possamos, quem sabe, reaprendermos a sentar, simplesmente, respirar e estar no mundo.

Assim como os corais lá no fundo, tentando nos manter vivos.

Mesmo que sejamos nós a matá-los.

E as falésias.

André Fabris - Advogado e Cronista - Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.