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ARTIGOS

Quando o privilégio performa humanidade e encontra a ausência do essencial

Quando o privilégio performa humanidade e encontra a ausência do essencial

Vivemos um tempo em que ensinaram que basta parecer. Parecer humano, parecer próximo, parecer simples. Há manuais, fórmulas, “hackezinhos” que prometem encurtar distâncias com gestos calculados: um vídeo na cozinha, uma receita ao meio-dia, um sorriso enquadrado na luz certa.

Mas há dias em que a realidade rompe qualquer estética.

Hoje, enquanto alguém cozinhava um prato requintado para se mostrar comum, havia quem não tivesse o que comer. E nesse encontro — ou desencontro — entre a imagem e a vida, algo se quebra.

Não se trata de condenar o ato de cozinhar, nem de reduzir o mundo a um maniqueísmo simplista entre certo e errado. A vida é feita de nuances. Mas também é feita de abismos. E certos gestos, ainda que bem intencionados ou estrategicamente pensados, podem atravessar esses abismos sem sequer percebê-los.

Quando a tentativa de aproximação ignora a realidade do outro, ela não aproxima — expõe. Expõe o descompasso entre quem fala e quem escuta. Entre quem posta e quem vive. Entre o que é exibido e o que é possível.

Há uma diferença profunda entre parecer humano e ser reconhecido como humano. O primeiro pode ser ensaiado. O segundo só acontece quando existe algum tipo de verdade compartilhada, ou ao menos reconhecida.

Porque não é apenas sobre o que se mostra, mas sobre o que o outro sente ao ver.

E o que se sente, às vezes, não é conexão — é distância.

Talvez esses métodos funcionem para alguns. Talvez produzam engajamento, curtidas, identificação em determinados recortes de mundo. Mas, para outros, eles evidenciam o contrário: uma espécie de humanidade encenada que não atravessa a realidade concreta de quem está do outro lado.

No fim, fica uma pergunta silenciosa, mas incômoda:

que tipo de proximidade é essa que só existe na tela, mas não resiste ao encontro com a vida real?

Porque quando o cotidiano de uns é luxo e o de outros é ausência, não é a estética que resolve a distância.

É a consciência dela.

*Tácio Júnior é jornalista, pela Universidade Federal do Acre, e acadêmico de sistemas para internet, no Instituto Federal do Acre