Há algo que se repete com inquietante naturalidade sempre que um advogado se torna alvo de uma operação policial: antes mesmo da denúncia, da defesa e do contraditório, já se impõe a condenação pública.
A imagem é exposta, o nome é estampado, as acusações são tratadas como verdades consumadas e a narrativa midiática se constrói em tom definitivo. O processo, quando vem, chega atrasado (porque a reputação já foi julgada e sentenciada).
Não é assim em todos os casos.
Já vimos operações em que o rosto do investigado é preservado, o nome aparece apenas por iniciais e a cautela orienta a cobertura jornalística. Em outras situações, a identidade é resguardada em nome da dignidade da pessoa humana e da presunção de inocência.
Curiosamente, essa cautela costuma desaparecer quando o alvo é um advogado. Como se o exercício da advocacia retirasse do indivíduo a condição de cidadão e o tornasse personagem legítimo do espetáculo.
É preciso dizer com clareza: este não é um texto para “passar pano” para condutas ilícitas. Se houver crime, que seja apurado com rigor. Se comprovado, que seja punido nos termos da lei. Ninguém está acima da lei (e isso inclui, evidentemente, advogados).
O que se questiona aqui é o tratamento desigual, o linchamento prévio e a seletividade da exposição. Porque a mesma manchete que destrói reputações raramente se reapresenta, com igual destaque, quando a inocência é reconhecida ou a acusação se mostra infundada.
Há também uma autocrítica necessária.
Muitas vezes, somos nós mesmos, advogados e advogadas, que contribuímos para esse cenário. O escárnio contra o colega, a ironia pública, o julgamento apressado nas redes sociais e nos grupos de mensagens ajudam a legitimar a narrativa da execração.
Quando rimos da desgraça alheia, abrimos mão de uma proteção que, amanhã, pode nos fazer falta.
A advocacia é, por essência, uma função contramajoritária. Defender direitos, garantir o devido processo legal e sustentar garantias fundamentais nunca foi tarefa confortável.
Justamente por isso, quando um advogado é exposto como troféu, a ferida não é apenas individual, é institucional. Não se trata de corporativismo, mas de coerência.
Quem defende o Estado de Direito não pode aceitar que ele seja relativizado conforme o personagem da vez.
Talvez seja hora de refletir, com mais serenidade, sobre o papel da mídia, das instituições e da própria classe nesse processo.
O chamamento aqui é simples: é preciso que haja menos espetáculo e mais responsabilidade, mais compromisso com as garantias que sustentam a democracia.
Porque hoje é o outro. Amanhã, pode ser qualquer um de nós.
