Mais uma pesquisa eleitoral, desta vez do Paraná Pesquisas, foi publicada nesta quarta-feira para o Acre. Os números são conhecidos: Alan Rick tem 41,2%, Mailza tem 24,4% e Bocalom tem 16,1%. O candidato da esquerda, Thor Dantas patina e não aparece de modo significativo. A margem de erro é de 3,2 % para cima ou para baixo. Os dados assim vistos parecem claros, evidentes, límpidos. Mesmo assim, há quem, inclusive no meio jornalístico, se esforce para espremer os números até sacar algo que justifique a encomenda de distorcê-los.
Ora, há 7 meses, pelo menos, o senador Alan Rick mantém esse nível acima de 40 % e, ao mesmo tempo, os outros dois mantém somados um nível equivalente. Ou seja, “está tudo como dantes no quartel de Abrantes”, um brocado português surgido durante a invasão de Napoleão, que significa “nada mudou, tudo está como antes”.
Se formos rigorosos podemos declarar que de fato houve uma mudança entre o segundo (Mailza) e o terceiro (Bocalom), que alternaram as posições sem saírem, na soma dos dois, de uma posição ainda desconfortável. Tanto que, nas simulações de segundo turno, Alan Rick teria mais que o dobro de Tião Bocalom e mais de 20% acima de Mailza Assis. Verifica-se que o crescimento da Mailza se deu às custas do Bocalom que teve um decréscimo importante, enquanto a “queda” de Alan Rick, de 3%, se deu na margem de erro da pesquisa, o que é perfeitamente razoável e comum que aconteça.
Apesar de serem claros, de vez em quando os números são levados pela mídia à sala de espancamento para gerarem frases mentirosas como “Mailza encosta”. Como assim? Desde quando 41% estão “encostados” em 24%? Os “especialistas”, alguns menos afoitos, escondem o dado mais importante revelado pela pesquisa que é o seguinte: Se considerarmos a margem de erro, há um cenário em que Alan Rick ganharia no primeiro turno. Basta que se faça o exercício estatisticamente autorizado de que Alan Rick ocupe a margem superior do intervalo (44,7%), Mailza a margem inferior (21,4%) e Bocalom idem (12,6%). Apurados, isso significaria que Alan pode ter 44,7% contra 34% dos dois somados. Neste caso, precisaria que Thor tivesse mais de 10% para provocar um segundo turno. Preciso desenhar?
O momento da campanha em que estamos é propício para esse tipo de repercussão. Contra o poder estabelecido no governo federal, no governo estadual e no governo da capital, Alan Rick é o competidor mais susceptível ao ataque de todos porque não dispõe dos meios de ação midiática.
O que ganham os competidores fazendo isso, ou seja, repercutindo falsas interpretações? Trata-se de impor uma narrativa de reação de quem estava há meses patinando no mesmo lugar, apesar do superesforço empreendido na divulgação e em acordos de toda sorte. Romper o marasmo, ou, pelo menos fazer perceber que há algum ânimo implica comunicar fatos positivos, alvissareiros. Lembra da construção da narrativa a que Lula se referiu, quando dava conselhos ao seu amigo Nicolas Maduro? É disso que se trata – construir uma narrativa positiva, esperançosa, ainda que os dados não autorizem.
As eleições estão ganhas? Não. Para nenhum dos lados. Todos terão que trabalhar muito. Alan Rick para manter o capital que conseguiu acumular até aqui, apesar de lutar contra todas as máquinas. Mailza para verdadeiramente sair do patamar médio e demonstrar viabilidade eleitoral independente de Gladson Cameli, cuja performance está em queda. Bocalom para limpar o mofo do “produzir para empregar” e se colocar no século XXI. Cada um com seus talentos e recursos que obviamente são bastante diferenciados.
O tempo é o mesmo para todos, os meios de ação privilegiam Mailza (detém a máquina governamental) e Bocalom (tem o apoio do prefeito da capital). Alan Rick que lute com as armas que tem – interlocução e compromisso direto com a população, nenhum acordo espúrio, sua experiência política e a disposição para trabalhar.
De todo modo, os eleitores segurem-se em suas posições porque o avião da campanha vai decolar e passará por turbulências. Esperemos que o pouso seja o melhor possível nos trazendo eleito o melhor candidato, aquele que mais tem condições e disposição para promover uma mudança real, com a perspectiva de um desenvolvimento radicalmente direcionado a oferecer oportunidades para a nossa gente.
Valterlucio Bessa Campelo. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP
