Há uma frase popular, dessas que ecoam nos varadouros do nosso Acre, que resume com precisão cirúrgica o atual cenário político que se desenha por aqui, nas terras de Galvez: "a cada enxadada, uma minhoca". O ditado, embora simples, carrega a densidade de quem sabe que, sob a superfície de certas gestões, a terra não esconde apenas raízes, mas segredos que o tempo e o poder tentam enterrar.
O recente movimento do ex-governador Jorge Viana junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), questionando o uso da Santa Casa de Misericórdia como destino preferencial de emendas parlamentares, não é apenas uma manobra de "tapetão", como tenta emplacar a defesa de Márcio Bittar. É, antes de tudo, um grito por transparência em um estado que cansou de ver recursos públicos virarem pó — ou, pior, combustível para o clientelismo.
Para entender por que a ação de Viana faz sentido, é preciso olhar pelo retrovisor. A carreira de Márcio Bittar não é feita de fatos isolados, mas de uma coerência narrativa preocupante. Há método. Desde os tempos de deputado federal, quando a história de um motorista supostamente usado como "laranja" para ocultar patrimônio ganhou os corredores do STF, o senador parece caminhar sobre uma linha tênue entre o mandato e a suspeição.
Como relator do Orçamento no governo Bolsonaro, Bittar não apenas distribuiu recursos; ele operou o mecanismo do "Orçamento Secreto", uma engrenagem que, por design, foi feita para apagar rastros. Agora, com as "Emendas Pix" e o foco na Santa Casa, o padrão se repete: o dinheiro chega rápido, a fiscalização é lenta e a saúde da população continua na UTI da precariedade.
Dizer que Jorge Viana age apenas por medo de perder nas urnas em 2026 é um argumento raso de Bittar. A política é, sim, um jogo de forças, mas a democracia exige que as regras sejam iguais para todos. Quando órgãos como a Controladoria-Geral da União (CGU) apontam que o dinheiro enviado para instituições filantrópicas serve de "canal de escape" para evitar licitações e beneficiar aliados, o debate deixa de ser sobre quem tem mais votos e passa a ser sobre quem respeita o dinheiro do contribuinte.
O ministro Flávio Dino, ao exigir a rastreabilidade das emendas, apenas deu a enxada para quem quer limpar o terreno. Se Bittar se diz perseguido, é preciso perguntar: por que a prestação de contas causa tanto desconforto? O povo do Acre é resiliente, mas não é ingênuo. Queremos obras, queremos hospitais equipados, mas não queremos que o preço disso seja o silêncio diante de práticas que cheiram a um passado que o Brasil luta para superar.
E esse último episódio envolvendo Bittar, Viana e o STF, mostra que a política acreana vive um divisor de águas. De um lado, a tentativa de manter as sombras; do outro, a necessidade de trazer a luz. Que a justiça continue cavando. Pois, se a cada enxadada surge uma minhoca, talvez seja a hora de revolver e limpar o solo para que novas — e mais limpas — sementes possam, finalmente, brotar.
*Tácio Júnior é jornalista, pela Universidade Federal do Acre, e acadêmico de sistemas para internet, no Instituto Federal do Acre
