Há algo profundamente incômodo, e sim, revoltante, acontecendo nas redes sociais de estabelecimentos comerciais de Rio Branco. Sob o pretexto de “criatividade” ou “engajamento”, pessoas em situação de rua estão sendo usadas como peças publicitárias improvisadas para divulgar promoções, ofertas e liquidações. Não é inclusão. Não é solidariedade. É exploração.
Os vídeos são curtos, muitas vezes carregados de humor forçado, com falas ensaiadas ou improvisadas. Em comum, um detalhe perturbador: frequentemente, quem aparece nas gravações está visivelmente em situação de vulnerabilidade extrema, não raro sob efeito de álcool ou outras drogas. A imagem é exposta, compartilhada, curtida e comentada como entretenimento barato. Enquanto isso, a dignidade dessas pessoas vai sendo negociada em troca de alguns trocados, comida ou simplesmente pela promessa de visibilidade. É preciso dizer com todas as letras: isso não é marketing, é oportunismo social.
A lógica por trás dessa prática revela muito sobre uma parte do comércio local que parece ter perdido qualquer noção de limite ético. Em vez de investir em estratégias legítimas de comunicação, alguns preferem apostar na viralização fácil, explorando a condição de quem já não tem quase nada. Transformam sofrimento em conteúdo, vulnerabilidade em engajamento e exclusão em espetáculo.
E há uma camada ainda mais grave: o consentimento. Pode-se realmente falar em consentimento livre e consciente quando se trata de pessoas em situação de rua, muitas vezes sob efeito de substâncias ou em condição psicológica fragilizada? A resposta, para qualquer análise minimamente honesta, tende a ser não. O que existe ali é uma relação desigual, onde uma parte detém poder econômico, social e simbólico, e a outra apenas sobrevive.
Alguns defendem a prática com o argumento de que “estão ajudando”, oferecendo dinheiro ou alimento. Mas ajuda que expõe, constrange e reduz o outro a uma caricatura não é ajuda, é troca desigual travestida de bondade. É caridade com câmera ligada e consciência desligada.
Rio Branco, como qualquer cidade brasileira, enfrenta desafios sérios relacionados à população em situação de rua. Isso exige políticas públicas, empatia real e responsabilidade coletiva. O que não se pode aceitar é que essa realidade seja convertida em ferramenta de autopromoção.
É hora de o debate sair das redes sociais e chegar às instituições. Onde estão os órgãos de fiscalização? O Ministério Público, as secretarias de assistência social, os conselhos de direitos humanos? A omissão diante desse tipo de prática contribui para sua normalização.
Mais do que isso, é necessário que a própria sociedade reaja. Curtir, compartilhar e rir desse tipo de conteúdo é, ainda que indiretamente, validar a exploração. O consumo também é uma escolha ética. No fim das contas, a pergunta que fica é simples e desconfortável: até onde vale tudo por alguns cliques a mais? Se a resposta incluir a dignidade humana, então já fomos longe demais.
