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ARTIGOS

Educação, privilégio, o mito da ascensão social e a Medicina no Acre

Educação, privilégio, o mito da ascensão social e a Medicina no Acre

No Brasil — e no Acre de forma ainda mais sensível — a educação deixou há muito tempo de ser apenas um direito social para se transformar em um dos principais instrumentos de manutenção do status quo. Isso se revela com nitidez na mercantilização do ensino superior e, de modo ainda mais explícito, nos cursos de Medicina.

Mensalidades que chegam a 10, 12 ou 15 mil reais por mês não são apenas valores elevados: são barreiras sociais. Funcionam como filtros de classe que definem, antes mesmo da sala de aula, quem pode ocupar posições de prestígio, poder e renda. Não se trata de mérito, mas de ponto de partida. No Acre, onde a desigualdade histórica se soma à distância geográfica e à fragilidade estrutural, esse modelo aprofunda exclusões já existentes.

A recente divulgação de avaliações nacionais que apontam desempenhos baixíssimos de cursos privados de Medicina — inclusive no nosso estado — escancara uma contradição grave: cobra-se como se fosse elite, forma-se abaixo do aceitável. A educação, nesse formato, deixa de cumprir qualquer função emancipadora e passa a operar como mercadoria simbólica, vendendo status, não compromisso social.

Do ponto de vista sociológico, estamos diante de um sistema que reproduz privilégios. Antropologicamente, consolida a ideia de que certos espaços — como o da Medicina — não pertencem aos pobres, aos negros, aos indígenas, aos filhos da periferia e do interior. Politicamente, enfraquece o SUS ao formar profissionais distantes da realidade do povo. Economicamente, transforma o sonho de ascensão em endividamento e frustração.

A pergunta que precisa ser feita não é se precisamos de mais médicos, mas quais médicos, para quem e formados sob quais valores. Enquanto a educação for tratada como negócio e não como projeto social, continuará servindo mais à manutenção dos privilégios do que à transformação da realidade. O debate é urgente — e diz respeito ao futuro do Acre e do Brasil.

*Tácio Júnior é jornalista, pela Universidade Federal do Acre, e acadêmico de sistemas para internet, pelo Instituto Federal do Acre