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ARTIGOS

Da “dancinha” ao “pode comprar, se quiser, ou se quiser vir”: a era das trends normalizou a preguiça criativa na internet — e ninguém reagiu

Da “dancinha” ao “pode comprar, se quiser, ou se quiser vir”: a era das trends normalizou a preguiça criativa na internet — e ninguém reagiu

Há algo profundamente irritante — e, ao mesmo tempo, revelador — na obsessão contemporânea por trends, conteúdos que ganham popularidade durante determinado período na internet, especialmente nas redes sociais. Pode me julgar, mas a sensação é simples: virou um porre. Não pela criatividade em si, que sempre existiu, mas pela repetição automática, quase robótica, que transforma qualquer ideia minimamente original em uma avalanche de cópias sem alma.

O fenômeno não é novo, mas ganhou escala industrial com as redes sociais. Uma dancinha, uma frase, um filtro, um áudio qualquer — basta viralizar para ser replicado milhões de vezes, até perder completamente o sentido. O que era espontâneo vira protocolo. O que era engraçado vira obrigação. E o que era novo envelhece em questão de horas.

O dramaturgo Nelson Rodrigues já alertava, décadas atrás: “toda unanimidade é burra”. A frase nunca pareceu tão atual. As trends são, na prática, a materialização dessa unanimidade digital. Todo mundo faz, todo mundo compartilha, todo mundo consome — e quase ninguém questiona.

O mais curioso é que essa dinâmica atravessa gerações, inclusive aquelas que adoram se definir por letras: X, Y, Z, Alpha… uma sopa de consoantes e vogais que tenta organizar comportamentos, mas que, no fundo, acaba nivelando tudo por baixo. Cada geração acredita estar reinventando o mundo, mas, muitas vezes, está apenas repetindo o mesmo ciclo de adesão cega ao que está “em alta”.

Existe uma espécie de ansiedade coletiva de não ficar de fora. Não participar da trend virou quase um ato de rebeldia silenciosa. É como se o valor estivesse menos no conteúdo e mais na presença — estar ali, marcar território, mostrar que se pertence àquele momento efêmero.

E talvez este seja o ponto mais incômodo: a lógica da trend não premia pensamento, profundidade ou autenticidade. Premia velocidade. Premia repetição. Premia quem chega primeiro ou quem copia melhor. O resultado é uma cultura cada vez mais rasa, em que tudo precisa ser imediato, digerível e, acima de tudo, replicável.

Isso não significa que toda trend seja inútil. Algumas são criativas, divertidas, até politicamente relevantes. O problema é o volume, a insistência e a transformação disso em padrão dominante. Quando tudo vira trend, nada mais se sustenta como expressão genuína.

No fim das contas, reclamar das modinhas da internet pode soar como saudosismo ou implicância — e talvez seja mesmo, em parte. Mas também pode ser um alerta. Nem toda novidade merece ser seguida. Nem toda unanimidade merece aplauso. Às vezes, a coisa mais subversiva que alguém pode fazer hoje é simplesmente não entrar na onda.