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ARTIGOS

Acre precisa agir para proteger o Santo Chá Sagrado e barrar o comércio ilegal da ayahuasca

Acre precisa agir para proteger o Santo Chá Sagrado e barrar o comércio ilegal da ayahuasca

O Acre ocupa um lugar central na história, na cultura e na espiritualidade amazônica. É território de povos indígenas originários, berço de tradições ancestrais e referência mundial quando o assunto é o uso ritualístico da ayahuasca — o Santo Chá Sagrado, elemento espiritual, cultural e medicinal de inúmeras comunidades indígenas e religiões tradicionais da floresta.

Entretanto, o que deveria ser protegido como patrimônio cultural e espiritual do povo acreano corre risco diante do avanço silencioso — e muitas vezes tolerado — do comércio ilegal da ayahuasca, que desvirtua completamente seu sentido original e expõe o Estado a um problema de dimensão internacional.

Relatórios, investigações e matérias jornalísticas recentes apontam que a ayahuasca deixou de circular apenas em contextos tradicionais e passou a integrar rotas clandestinas internacionais, com envio irregular para países da Europa e da América do Norte. O resultado tem sido prisões, processos judiciais, deportações e criminalização de lideranças indígenas, enquanto atravessadores e exploradores seguem, muitas vezes, impunes.

Essa distorção revela um grave erro de foco: quem preserva o saber ancestral é penalizado, enquanto quem transforma o sagrado em mercadoria prospera.

O silêncio do poder público preocupa

O Acre não pode continuar assistindo passivamente à banalização do Santo Chá. A ausência de políticas públicas claras, fiscalização qualificada e diálogo com povos indígenas e instituições tradicionais cria um vácuo perigoso, ocupado pelo mercado ilegal, pelo turismo espiritual predatório e pela exploração comercial sem qualquer compromisso cultural, ambiental ou ético.

Autoridades estaduais precisam compreender que não se trata de repressão religiosa, mas de proteção cultural, defesa da soberania dos povos tradicionais e combate ao crime organizado que se infiltra nesse nicho.

O uso ritual da ayahuasca, quando realizado dentro das tradições indígenas e religiosas reconhecidas, não é crime. Crime é transformar o sagrado em produto, enviar o chá como mercadoria clandestina, lucrar com o conhecimento ancestral e colocar comunidades inteiras sob risco jurídico e social.

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Proteção exige ação concreta

É urgente que o Governo do Acre, o Ministério Público, os órgãos ambientais, culturais e de segurança pública atuem de forma integrada para:
• Reconhecer e fortalecer os povos indígenas como detentores legítimos do conhecimento tradicional;
• Criar mecanismos de controle e rastreabilidade que diferenciem uso ritual de comércio ilegal;
• Combater atravessadores, intermediários e redes de exportação clandestina;
• Proteger lideranças indígenas e religiosas da criminalização indevida;
• Promover diálogo internacional para evitar que práticas tradicionais sejam tratadas como narcotráfico.

Sem essa atuação, o Acre corre o risco de ver sua herança espiritual apropriada por interesses externos, enquanto seus povos originários pagam o preço mais alto.

O Santo Chá não é mercadoria

A ayahuasca não é produto de prateleira, não é atração turística exótica, não é droga recreativa. É sagrado, é identidade, é ancestralidade viva.

Proteger o Santo Chá Sagrado é proteger a própria história do Acre. Ignorar esse debate é permitir que o sagrado seja corrompido pelo lucro, que a tradição seja substituída pelo mercado e que a floresta perca mais um de seus pilares simbólicos.

O alerta está dado. O silêncio, agora, também será uma escolha — e suas consequências recaem sobre todos.

Willamis Franca - jornalista do notícias da hora